Meditação do Nascente
Meu Deus, Tu sabes de onde veio esta casa. Ninguém mais sabe. Os outros veem telas, veem cores, veem um nome bonito no alto da página — mas Tu viste o homem que a construiu com o peito arrebentado, viste as madrugadas em que eu, construía códigos e indexava sistemas complexos, porque não conseguia organizar a mim mesmo, viste o dia em que eu chorei diante do teclado sem saber direito por quê e continuei trabalhando com os olhos ardendo, porque parar doía mais. Esta casa não nasceu de talento. Nasceu de fome. Nasceu de uma mente que não sossegava, que se despedaçava em mil janelas abertas, que fugia de si mesma correndo de tarefa em tarefa — e que um dia, exausta, se ajoelhou e pediu socorro. E Tu vieste. Não me deste um sistema; me deste um chão. E hoje eu confesso, com a boca e com a alma: aqui não há altar. Que ninguém se engane, que eu mesmo nunca me engane — há um só altar na minha vida, e nele não cabe mais ninguém: pertence ao Deus Altíssimo, Autor da minha existência e Redentor da minha alma, o Pai Todo-Poderoso, em Jesus Cristo, Seu Filho Unigênito, pelo poder do Espírito Santo. Tudo o mais que existe sob este teto é bancada, é ferramenta, é pó com nome próprio. E se um dia esta obra começar a brilhar mais que Aquele que a sustenta, Senhor, quebra-a. Quebra sem dó. Prefiro os cacos contigo a ter o portal inteiro e Te perder de vista.
Ó minha alma, agora entra — mas entra descalça. Entra sabendo que a misericórdia chegou antes de ti e já está sentada aqui dentro, esperando: ela tem até nome de botão nesta casa, e se chama Retomar a leitura. Repara nisso e chora, homem, chora de gratidão: o teu Deus nunca te pediu que jamais atrasasses. Só te pediu que voltasses. Quantas vezes tu voltaste sujo, mudo, seco, sem uma oração inteira na garganta — e Ele não te cobrou explicação, só disse: senta, meu filho, é hoje, começa daqui. Trabalha, então. Estuda sem te inflar. Escreve sem te aplaudir. Vela sem confiar na tua vigília, porque o Guarda de Israel não dormita nem dorme, e é Ele quem segura os muros enquanto tu cais no sono. E quando fechares esta porta e o mundo lá fora te vier com seu barulho e sua dureza, não deixes aqui dentro o que aqui recebeste. Sai molhado. Sai gotejando. Vai para os cansados, para os que perderam o fio da própria vida, para os que bebem de cisternas rotas e continuam com sede — e derrama neles, sem medir, sem cobrar, sem guardar nada para o teu nome. Porque nada disto é meu: nem a água, nem a mão que a carrega, nem a sede que Tu mesmo puseste em mim só para poder saciá-la em Ti. E se um dia esta fonte secar, que sequem também os meus lábios — mas que fique a Rocha. Sempre a Rocha. Só a Rocha.
— Capelão Nascente